• Prof.Breno

A Medicina não pode ser feita apenas com boas intenções


Trechos do texto brilhante de Ana Lucia Coradazzi e Jaqueline Doring.


Em 1937, a sulfonamida era amplamente utilizada, com uma eficácia impressionante, mas só era disponibilizada na forma de comprimido ou pó, o que limitava seu uso em crianças. Harold Cole Watkins, químico e farmacêutico, descobriu que o dietilenoglicol garantia uma ótima diluição da sulfonamida. A medicação foi então distribuída, com fragrância e coloração de framboesa. Em menos de 15 dias, cerca de 130 pessoas, em sua grande maioria crianças, morreram envenenadas.


O incidente da sulfonamida nos deixou com o coração sombrio. Todos os indícios apontavam para o provável sucesso também no tratamento de crianças. Certamente, o coração de Watkins estava inundado de boas intenções quando diluiu o remédio eficaz num veneno letal. A ciência não pode ser feita apenas com boas intenções. Foi a partir de experiências escabrosas como essas que o método científico e os princípios da bioética se desenvolveram: para proteger os pacientes de pesquisadores mal-intencionados, de interesses farmacêuticos torpes e, também, de médicos bem-intencionados que possam colocá-los em risco sem intenção de fazê-lo.


Às vezes, é muito duro aceitar as limitações da medicina. Não é fácil lidar com um paciente ainda tão cheio de sonhos sentado à sua frente, mas para o qual não existe qualquer tratamento comprovado. Meu cérebro luta contra esse tremendo desconforto tentando antecipar resultados de estudos ou, até mesmo, tentando convencer a mim mesma que se o medicamento já foi testado um dia, mesmo que num contexto totalmente diferente, é seguro prescrevê-lo, mas minhas mãos estremecem ao pensar no gosto amargo da framboesa. É nesses momentos de angústia que me lembro do princípio mais importante da medicina: Primum non nocere et in dubio abstino (“Em primeiro lugar, não cause dano; se em dúvida, abstenha-se de intervir.”). Não posso oferecer milagres aos pacientes e muito menos iludí-los com tratamentos que ainda não sabemos se podem beneficiá-los – e pior, que podem resultar em ainda mais sofrimento. Acreditem, é preciso ter muito mais coragem e compaixão para não indicar um tratamento do que para indicá-lo.


Veja o texto completo no site do Slow Medicine Brasil.


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