• Prof.Breno

O Médico Medroso



Há um tempo, estava pensando sobre as melhores qualidades de um médico. Empatia, cumplicidade com o seu paciente, bom humor, conhecimento, experiência, tranquilidade... Subitamente, me veio à cabeça uma qualidade pouco discutida, mas indispensável ao bom profissional de saúde: o medo.


Não o medo que trava, inibe e faz errar. Estou falando do medo saudável, aquele de prescrever a dose errada de uma medicação, dos efeitos colaterais, de um diagnóstico errado ou de uma conduta inadequada. O “medo bom” do médico inexperiente, mas estudioso e realmente preocupado com o seu paciente. O medo que promove uma atenção muito maior na condução dos casos. As chances de erro diminuem drasticamente.


Há mais de 15 anos venho participando da formação de jovens médicos, como preceptor da Residência de Clínica Médica. O medo dos residentes me deixa muito mais tranquilo. Prefiro o residente medroso ao corajoso. O questionador ao “sabe-tudo”. O estudioso ao passivo.


O primeiro plantão é motivo de muito medo, seja na enfermaria, no pronto-socorro ou na unidade de terapia intensiva. Todos nós, médicos, passamos ou passaremos por isso. Este medo é bom, pode acreditar.


Sempre falo para os residentes, diante de um plantão ou de uma nova empreitada: “Enquanto vocês estiverem com medo, eu fico tranquilo. Sei que vocês dão conta do recado. Meu medo só aparece quando vocês perdem os seus.”


Vale ressaltar que a função do medo não é limitar e sim, manter a atenção ligada.


Os números mostram que a maioria dos processos contra médicos ocorrem após 15 anos da formatura. Isto apenas corrobora o fato de que o medo, gerando atenção, previne o erro médico. O profissional que já atua há mais tempo ganha experiência e uma confiança perigosa, às vezes excessiva, perde o medo e descuida-se do paciente.


Toda mudança gera insegurança e medo. Sair da zona de conforto faz crescer. Novos desafios são essenciais para a vida. Caso você esteja, há muito tempo, sem sentir aquela dor de barriga de ansiedade e medo, reveja seus conceitos. Viver sem medo também é muito estressante.


O “medo bom” promove a procura pelo conhecimento, a atenção redobrada com o paciente e o bom atendimento. Nunca esqueça-se de manter este medo saudável. Cultive-o sempre! O médico com “medo bom” é mais seguro para o paciente. A experiência passa a ser perigosa se ela anula o medo.


Na Medicina, na maioria dos casos, a observação e um tempo a mais para estudar a situação com embasamento científico são possíveis e salutares. Geralmente, estudar o caso, ao invés de agir intempestivamente, é muito melhor e mais seguro.


Instagram @prof.breno

Telegram Carreira Médica

Youtube Divagando em Saúde

Facebook prof.breno